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Shogun: Um Presente para os Amantes da História Japonesa

"Shogun" é uma série da Disney, que teve sua estreia no final de fevereiro de 2024. A série rapidamente conquistou o público, alcançando o mesmo sucesso que as populares produções da Netflix e HBO. O que atraiu tanto os espectadores para esta nova série e o quanto a colaboração entre cineastas ocidentais e japoneses conseguiu retratar uma das épocas mais importantes da história do Japão?

Hiroyuki Sanada em Shogun

 

Como a Série foi Criada

Livros da Série Shogun

Aproveitando o crescente interesse do público pela cultura japonesa, a Disney decidiu lançar uma nova adaptação do romance "Shogun", de James Clavell, que já havia sido transformado em série em 1980. As filmagens ocorreram tanto no Japão quanto no Reino Unido, sob direção de renomados diretores, principalmente de Frederick E. O. Toye, responsável por quatro episódios, e com roteiros de diversos roteiristas, incluindo a cineasta de origem japonesa Rachel Kondo e o americano Justin Marks.

O romance original de James Clavell, publicado em 1975, demandou três anos de pesquisa sobre a história do Japão feudal, onde se desenrola a narrativa. A série "Shogun" é uma obra de ficção, portanto, muitos elementos foram inventados, mas o enredo principal é inspirado em eventos reais, especialmente na jornada do famoso comandante Tokugawa Ieyasu em sua ascensão ao poder e na formação do Shogunato Tokugawa (1603–1868). Vale ressaltar que muitos personagens são baseados em figuras históricas, com os nomes adaptados para se adequar à narrativa.

Essa nova versão de "Shogun" busca não apenas recontar uma história fascinante, mas também capturar a essência da cultura japonesa, refletindo a riqueza e complexidade da época.  

Cenário de Shogun

Os eventos da série se desenrolam no Japão entre o final dos anos 1590 e o início dos anos 1600. A narrativa é apresentada pela perspectiva de John Blackthorne, um marinheiro britânico que chega ao Japão após um naufrágio. Surpreendentemente, ele se vê imerso em um dos períodos mais turbulentos da história japonesa, cercado por grandes mudanças políticas e sociais, o que exige que ele se adapte a uma cultura completamente nova.

"Shogun" não é apenas uma série envolvente, mas também serve como um convite ao público para explorar a rica e fascinante história do Japão. Através das experiências de Blackthorne, os espectadores são levados a entender melhor as complexidades das relações entre ocidentais e japoneses durante essa época crucial, ao mesmo tempo em que desfrutam de uma narrativa repleta de drama, intrigas e aprendizados culturais.

Essa combinação de entretenimento e educação histórica torna "Shogun" uma produção imperdível para quem deseja mergulhar no passado e entender as raízes de aspectos da cultura japonesa contemporânea. A série, portanto, não apenas entretém, mas também enriquece o conhecimento sobre um dos períodos mais significativos da história do Japão.

 

Política Japonesa para Iniciantes

Ilustração de Tokugawa Ieyasu

Para um cidadão comum, a política japonesa pode parecer um sistema complicado, e as intrigas e lutas de poder do Japão feudal podem ser ainda mais confusas no início. Por isso, para entender melhor o que envolve a série "Shogun", é útil conhecer algumas de suas características históricas antes de assisti-la. 

Historicamente, o imperador, ou tennō (天皇), não exercia um poder real no país. Desde o século X, a política estava nas mãos de conselheiros e regentes, enquanto o imperador atuava apenas como um símbolo do estado, governando de forma meramente formal. Muitas vezes, o imperador era jovem demais para tomar decisões por conta própria, levando à nomeação de um regente, conhecido como sesshō (摂政). Para um imperador adulto, o conselheiro e secretário era chamado de kampaku (関白).

As diversas regiões do Japão eram controladas por poderosos senhores feudais, chamados daimyō (大名). Cada daimyō possuía seu próprio exército e bandeira, resultando em um Japão feudal bastante descentralizado. Essa estrutura complexa é fundamental para entender as dinâmicas de poder que permeiam a série "Shogun", onde a luta pela influência e controle é uma parte central da narrativa.

Os sesshō e kampaku foram, de fato, os verdadeiros governantes do Japão, ocupando posições que frequentemente estavam em disputa e que muitas vezes resultavam em assassinatos políticos. Em 1192, foi estabelecido o primeiro shogunato no Japão, liderado pelo shōgun (将軍), o comandante militar supremo. A legitimidade do poder do shōgun era confirmada pelo imperador, que, embora fosse um símbolo de autoridade, tinha seu poder cada vez mais ofuscado pelos shōguns. Nesse período, a influência dos sesshō e kampaku começou a declinar. Os regentes que se aposentavam eram conhecidos como taikō (太閤), um título que será mencionado várias vezes na série.

Para muitas famílias influentes, a sucessão da linhagem era de extrema importância, e, por isso, os meninos herdeiros recebiam muita atenção. Enquanto isso, as meninas eram frequentemente utilizadas para formar alianças políticas por meio de casamentos estratégicos entre famílias. Assim como a família imperial, os shōguns, sesshō e kampaku também transmitiam seu poder de forma hereditária. Uma prática comum era enviar filhos para viver com famílias inimigas como reféns, garantindo que essas famílias não se voltassem umas contra as outras, mantendo assim uma frágil paz entre os clãs.

Essa complexa dinâmica de poder e alianças familiares é um elemento central da trama de "Shogun", oferecendo ao espectador um vislumbre da intriga política que permeava a sociedade japonesa da época.

 

O "Game of Thrones" Japonês

Cena de luta de Shogun

O renomado designer de jogos japonês Hideo Kojima comparou a série "Shogun" à famosa série "Game of Thrones", ambientando-a no contexto das guerras civis japonesas, conhecidas como sengoku (戦国). Essa analogia faz sentido, pois a essência da narrativa está nas intrigas políticas que permeiam a luta pelo poder. 

No final da década de 1590, o Japão se encontrava em um período de intensa disputa por poder. O shogunato já existia há mais de cem anos, e os regentes estavam em conflito constante. A morte do influente taikō, uma figura emblemática que, junto ao lendário daimyō Oda Nobunaga, havia temporariamente unificado as províncias em guerra do Japão, deixou um vácuo de poder. Nobunaga, assassinado por um traidor, deixou seu legado em mãos de um filho ainda muito jovem para governar.

Enquanto isso, o imperador não participava ativamente da política, não possuindo poder real. Antes de falecer, o taikō tomou uma decisão histórica ao determinar que, enquanto seu filho não estivesse pronto para assumir, o Japão seria governado por um Conselho de Cinco Anciãos, ou Go-tairo (五大老). Este conselho era composto por cinco poderosos daimyō, dos quais os dois mais influentes eram Ishido Kazunari (Ishida Mitsunari, na história do Japão), governante do Castelo de Osaka, e Yoshii Toranaga (Ieyasu Tokugawa, na história do Japão), que estava construindo a nova cidade de Edo no leste.

Cena de Shogun

As cinco figuras poderosas do conselho não conseguiram coexistir, o que desencadeou uma intensa luta pelo poder. Toranaga começou a articular casamentos políticos estratégicos para angariar o apoio de influentes famílias japonesas. Essa manobra não agradou Ishido, que almejava a liderança e conspirou com outros membros do conselho para eliminar Toranaga.

Em uma jogada decisiva, Ishido convidou Toranaga para o Castelo de Osaka, onde ele foi excluído do Conselho e forçado a cometer seppuku, um suicídio ritual. Aceitando a convocação e sabendo que se tornaria um refém, Toranaga deixa a mãe do herdeiro do taikō em Edo como garantia de sua segurança. Embora ciente dos riscos, Toranaga fez dessa estratégia uma parte de um plano mais elaborado.

Esses eventos estabelecem o cenário para a emocionante trama da série, onde as intrigas políticas e as manobras estratégicas se entrelaçam, prometendo um enredo rico em drama e tensão. 

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Personagens

John Blackthorne

Ator: Cosmo Jarvis

Personagem real: William Adams (1564–1620)

John Blackthorne

No início da série, o único navio holandês sobrevivente de cinco chega às costas do Japão, trazendo a bordo poucos sobreviventes, entre eles o protagonista, o britânico John Blackthorne. Sua missão era descobrir uma rota comercial secreta para o Japão, utilizando o Estreito de Magalhães, uma informação mantida em sigilo pelos portugueses por mais de 60 anos. O cenário se tornava ainda mais tenso devido ao fato de que os britânicos eram protestantes, enquanto os portugueses eram católicos, resultando em um histórico de inimizade. A expedição de Blackthorne tinha ordens para destruir os postos portugueses ao longo do caminho, o que justificava a carga pesada de armas, como mosquetes e canhões, que o navio transportava.

Quando o navio danificado chega à costa próxima da aldeia de Ajiro, todo esse armamento acaba nas mãos dos japoneses. O clã local, Yabushige, inicialmente planeja executar todos os estrangeiros, considerando-os selvagens. No entanto, Blackthorne tem sorte: ele escapa de um destino trágico e se vê envolvido nas complexas lutas pelo poder no Japão, onde o general Yoshii Toranaga se destaca como a figura principal. Os japoneses passam a chamar John de Anjin (按針), que significa "piloto", em reconhecimento à sua habilidade de navegação, que permitiu que o navio danificado chegasse às costas japonesas.

Um fato interessante: se você se pergunta o que um protagonista estrangeiro faz em um drama histórico japonês, vale lembrar que a figura de John Blackthorne é inspirada em um verdadeiro marinheiro britânico, William Adams. Ele foi o primeiro britânico a chegar ao Japão, onde foi apresentado a Ieyasu Tokugawa e se tornou o primeiro samurai estrangeiro a integrar sua corte.

  

Yoshii Toranaga

Ator: Hiroyuki Sanada

Personagem real: Ieyasu Tokugawa (1543–1616)

Yoshii Toranaga

Yoshii Toranaga viveu sua juventude como prisioneiro da família de seus inimigos, assim como seu equivalente histórico, Ieyasu Tokugawa. Com apenas 12 anos, ele participou de sua primeira batalha, tornando-se o comandante mais jovem a alcançar a vitória. Toranaga se destacou como um estrategista perspicaz, cuja principal meta era vencer com o mínimo de perdas. Ele tinha a ambição de transformar a nova cidade de Edo, que estava erguendo no leste do Japão, em seu centro de poder. No futuro, essa cidade se tornaria a capital do Japão, Tóquio.

Na série, Toranaga é um dos personagens centrais, e sua inteligência e determinação se destacam desde os primeiros momentos na tela. A performance do ator Hiroyuki Sanada é fundamental para isso, pois ele retrata de maneira impressionante a figura do grande comandante japonês, cativando o público com sua profundidade emocional e presença magnética.

Essa combinação de talento e contexto histórico torna a interpretação de Sanada memorável, contribuindo significativamente para o impacto da narrativa em "Shogun".

 

Kazunari Ishido 

Ator: Takehiro Hira

Personagem real: Ishida Mitsunari (1559–1600)

Kazunari Ishida 

Ishido é o governador do Castelo de Osaka e um dos membros mais ambiciosos e influentes do Conselho dos Cinco Regentes. Ele já foi secretário do taikō e se tornou um burocrata astuto, habilidades que Toranaga utiliza para seus próprios objetivos. No entanto, Ishido enxerga Toranaga como seu maior obstáculo na luta pelo poder no Japão e está decidido a eliminá-lo a qualquer custo. Sua ambição o leva a tramar intrigas e alianças, demonstrando que, na política do Japão feudal, a traição e a manipulação são tão comuns quanto a guerra aberta. A rivalidade entre os dois personagens intensifica a tensão da narrativa, revelando os complexos jogos de poder que permeiam a história de "Shogun".

 

Mariko Tōda

Atriz: Anna Sawai

Personagem real: Akechi Tama, conhecida também como Garcia Hosokawa (1563–1600)

Mariko Tōda

A protagonista da série "Shogun" é uma mulher nobre, casada e oriunda de uma família outrora respeitada, que se vê diante de um destino trágico. Devido às ações de seu pai, sua linhagem foi desonrada, tornando-a a última representante de sua família. Em busca de um propósito, encontra consolo na fé cristã, mantendo a esperança de que ainda tenha um grande destino a cumprir, apoiada pela confiança de Toranaga, a quem serve.

Quando John Blackthorne se apresenta a Toranaga pela primeira vez, Mariko é escolhida como sua tradutora, devido ao seu domínio do português. Apesar das diferenças culturais e de suas trajetórias, os dois personagens desenvolvem uma conexão profunda, encontrando consolo um no outro. 

Fato interessante! A linha romântica entre John e Mariko é uma criação artística. Na realidade, seus verdadeiros personagens nunca se encontraram, pois Garcia Hosokawa faleceu em 1600, pouco antes da chegada do verdadeiro marinheiro William Adams ao Japão.

 

Hirokatsu Tōda (Buntarō)

Ator: Abe Shinnosuke

Personagem real: Tadaoki Hosokawa (1563–1646)

Hirokatsu Tōda (Buntarō)

Buntarō, filho de Hiromatsu Tōda e marido de Mariko Tōda, é um forte guerreiro e leal samurai a serviço de Yoshii Toranaga. Mostra-se um bom soldado, contudo, devido ao seu temperamento explosivo e rude, é um péssimo marido, incapaz de entender os sentimentos de Mariko e a trata com severidade e crueldade excessivas. Como resultado, as relações familiares são extremamente tensas, mesmo na presença do seu filho. A situação se complica ainda mais com a chegada de John Blackthorne, com quem Mariko, por ordem de Toranaga, começa a passar mais tempo do que com o próprio marido. Essa dinâmica cria um cenário de conflitos emocionais e tensões que permeiam a narrativa da série.

 

Kashigi Yabushige

Ator: Asano Tadanobu

Personagem real: Masanobu Honda (1538–1616)

Kashigi Yabushige

Governante da Província de Izu, ele foi o primeiro a notar John Blackthorne. Esse personagem é astuto e traiçoeiro, sempre buscando tirar proveito de situações para seu próprio benefício. Ele tem uma peculiar paixão por escrever haikus sobre a morte e é conhecido por sua apreciação por execuções brutais; logo no início da história, ele chega a cozinhar um dos marinheiros da tripulação de Blackthorne vivo em um caldeirão. Apesar de sua natureza cruel, ele não teme a morte e, em um momento de desespero, quase se suicida com uma katana quando quase se afogou. É um dos personagens mais carismáticos da série, mantendo o público intrigado com sua complexidade e ações imprevisíveis.

 

Ochiba no Kata

Atriz: Fumi Nikaido

Personagem real: Yodo-dono (1569–1615)

Ochiba no Kata

A mãe do herdeiro taikō é uma figura influente que exerce considerável poder sobre Ishido. Ela também é amiga de infância de Mariko, com quem compartilhou muitos momentos na juventude. Com um forte desejo de incitar a guerra e eliminar Toranaga, ela se destaca como uma mulher poderosa e astuta, capaz de manipular habilmente aqueles ao seu redor. Sua complexidade a torna uma personagem intrigante na trama, refletindo as tensões políticas da época.

 

Hiromatsu Tōda

Ator: Nishioka Tokuma

Personagem real: Fujitaka Hosokawa (1534–1610)

Hiromatsu Tōda

Um respeitado general japonês e o amigo mais próximo de Toranaga, ele se destaca como um samurai forte e sábio, mesmo em sua idade avançada. A confiança que Toranaga deposita nele é maior do que em qualquer outra pessoa. Ao longo de suas vidas, eles lutaram juntos em diversas batalhas, e agora ele se torna um aliado leal na luta pelo poder contra os outros membros do Conselho dos Cinco Regentes. Sua experiência e lealdade são fundamentais para a estratégia de Toranaga em meio às intrigas políticas que permeiam a série.

 

Usami Fuji

Atriz: Moeka Hoshi

Personagem real: não há

Usami Fuji

Neta de Hiromatsu Tōda, Usami é a personagem com a história mais dramática da série. No início, seu marido é forçado a cometer seppuku por desrespeitar Ishido, o que resulta não apenas em sua morte, mas também na interrupção de sua linhagem, já que seu filho recém-nascido também é morto. A atriz Moeka Hoshi captura com maestria a imagem de uma jovem devastada que perdeu tudo, carregando o peso dessa tragédia ao longo de toda a série. Com o tempo, ela se torna serva de John Blackthorne, que a trata com consideração, permitindo que Usami encontre a força necessária para seguir em frente. 

 

Características da Série

A primeira temporada da série "Shogun" consiste em 10 episódios, cada um com duração de aproximadamente uma hora, seguindo o formato típico das produções da Netflix. Vários momentos da trama evocam a essência de "Game of Thrones", apresentando intrigas políticas, batalhas intensas e cenas de romance. Além disso, a série destaca uma coreografia de lutas impressionante e efeitos visuais que recriam com fidelidade a cidade de Osaka no final do século XVI. Ao mesmo tempo, mantém um forte compromisso com as tradições japonesas, refletindo na língua e na riqueza das decorações autênticas. 

Cidade de Osaka em Shogun

A série "Shogun" conquista o espectador desde os primeiros episódios com sua dramaticidade e meticulosa atenção aos detalhes. Ela mergulha o público em uma cultura singular do Japão samurai, onde a honra e as tradições muitas vezes prevaleciam sobre a vida e o bom senso. O cenário é repleto de contrastes: de um lado, paisagens deslumbrantes com montanhas majestosas, campos de arroz verdejantes e elegantes casas japonesas adornadas com jardins de pedras; do outro, o perigo espreitando nas sombras, representado por bandidos à espreita, práticas brutais como o seppuku e batalhas sangrentas que marcam a brutalidade da época. Essa dualidade entre beleza e crueldade torna a narrativa ainda mais fascinante e envolvente

Cena de Shogun

Vale ressaltar a atuação excepcional dos atores. Cosmo Jarvis trouxe vida ao personagem John Blackthorne, um homem bom, mas um tanto rude, que se destaca em meio à polidez e às tradições japonesas. Esse contraste é fundamental para o humor da série, especialmente em momentos como quando, após uma frase educada em japonês dirigida a um respeitado samurai, ele insere uma avalanche de xingamentos em inglês. 

Outro ponto importante é a linha romântica de "Shogun". John Blackthorne e Mariko Tōda desenvolvem uma paixão profunda, apesar das inúmeras diferenças em seus temperamentos e destinos. Mariko, casada e com um filho, não encontra felicidade em seu casamento, e é John quem a ajuda a aceitar sua verdadeira identidade.

Você sabia? Em narrativas sobre a temática do Japão samurai, frequentemente encontramos enredos românticos envolvendo mulheres casadas, como no filme "O Último Samurai" com Tom Cruise e no primeiro OVA do anime "Rurouni Kenshin". Isso se deve ao fato de que, na época, as mulheres eram dadas em casamento por decisões familiares, muitas vezes contra sua vontade, e não tinham o direito de se divorciar. Elas só podiam se libertar após a morte do marido. Assim, Mariko não demonstra tristeza quando, em uma das cenas, todos acreditam que seu marido faleceu. Contudo, quando ele retorna vivo, sua decepção é palpável, intensificando a tensão em seu relacionamento.  

 

O Idioma Japonês na Série

A colaboração entre cineastas ocidentais e japoneses conseguiu retratar de maneira precisa uma das épocas mais significativas da história do Japão. 

Apesar de "Shogun" ser, essencialmente, uma série voltada para o público ocidental, sua produção contou com uma estreita colaboração com o Japão. Os criadores se dedicaram minuciosamente para recriar a atmosfera do Japão autêntico do final do século XVI. Uma das decisões mais notáveis foi a escolha de deixar os atores japoneses falarem predominantemente em japonês, ao contrário de muitas produções ocidentais, em suas cenas, mantendo o realismo e a fidelidade cultural. Por outro lado, personagens como John Blackthorne, Mariko e os tradutores portugueses utilizam o inglês. Isso resulta em uma divisão linguística na série: cerca de 80% dos diálogos são em japonês e 20% em inglês, ao contrário de muitas produções ocidentais.

Essa escolha não apenas valoriza a autenticidade cultural, mas também proporciona uma experiência mais imersiva para o público, quando assistida na versão original com legendas. A série reflete um compromisso em respeitar a história e a linguagem da época, o que tem sido bem recebido pelos críticos e pelo público.

Cena de Shogun

Curiosidade interessante: no contexto histórico da série, o inglês era uma língua desconhecida no Japão da época. Os poucos estrangeiros que chegavam ao país se comunicavam em português, fato que é abordado na narrativa. Entretanto, para facilitar a compreensão do público, os diálogos em português foram substituídos pelo inglês.

Para tornar "Shogun" mais autêntico, os diálogos dos personagens não utilizam o japonês moderno, mas sim uma versão arcaica inspirada no período dos samurais. Na verdade, essa linguagem não é exatamente o japonês antigo, mas sim uma forma adaptada utilizada em jidai-geki (時代劇) – dramas históricos japoneses. Nesses contextos, o japonês contemporâneo é combinado com expressões arcaicas e construções gramaticais antigas para criar uma linguagem que seja compreensível ao público atual, mas que ainda transmita a atmosfera da época: 

  • Pronomes obsoletos: Ishido, ao falar de si mesmo na presença de Ochiba, usa "sessha" (拙者), um pronome humilde utilizado por samurais, que significa literalmente "pessoa inábil". Toranaga, por outro lado, prefere "washi" (儂), uma forma arcaica de "eu". Quando se dirigem aos outros, usam "onushi" ou "sonata" em vez do "anata" moderno para "você".

  • Formas verbais arcaicas: Utilizam formas antiquadas do verbo "ser", como "gozarimasuru" e a menos formal "gozaru", que eram comuns no dialeto de Osaka durante o período dos samurais.

  • Terminações verbais negativas em ~nu: Em vez de usarem a forma moderna "naranai", preferem a forma mais antiga "naranu".

  • Partícula “ja”: Comumente usada para conectar partes das frases, em lugar do "da" ou "desu" mais modernos.

Essa abordagem realmente captura a essência da época dos samurais, mas se você pretende aprender japonês assistindo a série “Shogun”, é importante ter cautela. Muitos termos ensinados a John Blackthorne, como katajikenai e kokoroemashita, são raramente usados no japonês contemporâneo

  • Katajikenai (忝い) é uma expressão de gratidão, cujo equivalente moderno mais comum seria arigatou (ありがとう). Atualmente, seu uso é quase exclusivamente literário ou arcaico, sendo mais adequado para situações formais e históricas.

  • Kokoroemashita (心得ました) significa algo como "entendi", "compreendido", ou "anotei". Apesar de ainda ser usado, é mais formal e menos comum em conversas cotidianas, onde a expressão moderna wakarimashita (分かりました) é preferida.

Curiosidade: na adaptação de "Shogun" de 1980, kokoroemashita foi substituído pela forma mais comum wakarimashita, enquanto na versão de 2024, manteve-se a escolha mais arcaica para uma maior autenticidade histórica. Isso mostra um cuidado maior com a ambientação cultural na nova adaptação.

 

O Sucesso de Shogun em Números

A produção, iniciada em 2018, trouxe resultados impressionantes: a série recebeu uma classificação de 8.8 no IMDb e rapidamente se tornou parte do top 100 das melhores séries de todos os tempos.

Elenco de Shogun com os prêmios Emmy

Refletindo esses números, na noite de 15 de setembro, os Emmys, conhecidos como o "Oscar da TV", coroaram um novo campeão. "Shogun" se destacou, conquistando um recorde de 18 estatuetas, o maior número já alcançado por uma série em uma única edição. Dentre as premiações da noite, "Shogun" levou, dentre outras, o troféu de Melhor Ator em Série Dramática (Hiroyuki Sanada), de Melhor Atriz em Série Dramática (Anna Sawai), de Melhor Direção em Série Dramática (Frederick E. O. Toye) e de Melhor Série Dramática. Essa última conquista é especialmente significativa, pois "Shogun" se tornou a primeira produção em língua não inglesa a receber esse prêmio.

Anna Sawai e Hiroyuki Sanada

Hiroyuki Sanada fez história como o primeiro japonês a vencer na categoria de Melhor Ator, enquanto Anna Sawai se tornou a primeira mulher asiática a ganhar o prêmio de Melhor Atriz, ressaltando o impacto global da série e a importância da diversidade cultural na televisão.

Frederick E. O. Toye também foi premiado por sua direção no episódio "Crimson Sky" ("Céu Carmesin"), um reconhecimento merecido. Este nono episódio é um dos momentos mais impactantes da série, apresentando um clímax que destaca a atuação de dois personagens principais. A direção das cenas de ação e a preparação dos atores fazem deste um dos episódios mais memoráveis da temporada.

Nestor Carbonett como Vasco Rodrigues

Além disso, Nestor Carbonell celebrou sua tão esperada primeira vitória no Emmy (Melhor Ator Convidado em Série Dramática) após 25 anos de carreira, sendo reconhecido por sua atuação como Vasco Rodrigues, um capitão de navio que ajuda John Blackthorne a chegar ao Japão. 

Outros prêmios que a série conquistou foram:

  • Melhor Elenco em Série Dramática
  • Melhor Cinematografia em Série (Uma Hora)
  • Melhores Figurinos de Época em Série
  • Melhor Maquiagem ou Penteado de Época ou Fantasia/Ficção Científica
  • Melhor Design de Título Principal
  • Melhor Maquiagem de Época ou Fantasia/Ficção Científica (Não Prostética)
  • Melhor Maquiagem Prostética
  • Melhor Edição de Imagem em Série Dramática
  • Melhor Design de Produção em Programa Narrativo de Época ou Fantasia (Uma Hora ou Mais)
  • Melhor Edição de Som em Série de Comédia ou Dramática (Uma Hora)
  • Melhor Mixagem de Som em Série de Comédia ou Dramática (Uma Hora)
  • Melhores Efeitos Visuais Especiais em uma Temporada ou Filme
  • Melhor Performance de Dublê

Prêmios à parte, "Shogun" se destaca como um sinal de que o público norte-americano está cada vez mais receptivo a produções internacionais. Nos Estados Unidos, a série conquistou impressionantes 9 milhões de espectadores nos primeiros seis dias após sua estreia, estabelecendo um recorde para lançamentos da FX no Hulu. Além disso, tornou-se a série de estreia mais assistida para um programa roteirizado da Disney no cenário internacional.

Esse alcance é ainda mais impressionante considerando que a maior parte dos diálogos é em japonês, forçando os espectadores a se habituarem a ler legendas, algo incomum tendo em vista o domínio da língua inglesa nas produções norte-americanas. Isso indica uma mudança significativa na aceitação de obras de outras culturas pelo público norte-americano, abrindo portas para uma maior diversidade de narrativas na televisão.

Cena de Shogun

A conexão temática de "Shogun" com elementos que ressoam também na cultura ocidental, como questões de poder e intrigas, parece ter facilitado a aproximação do público norte-americano, criando oportunidades promissoras para que produções internacionais sejam mais reconhecidas, ganhem audiência e, consequentemente, prêmios. 

Com um sucesso tão grande, não é surpreendente que a continuação da série esteja em andamento. Conhecida como a "Game of Thrones da Disney", "Shogun" foi renovada para uma 2ª e 3ª temporadas. Curiosamente, a série foi inicialmente concebida como uma minissérie com início e fim em uma única temporada. No entanto, devido ao seu imenso sucesso, a equipe executiva decidiu expandir a narrativa para mais duas temporadas, desafiando os roteiristas a desenvolverem a história do Lorde Yoshii Toranaga, já que o romance no qual a série se baseia foi totalmente explorado nos primeiros 10 episódios.

Justin Marks, cocriador da série, revelou que a equipe criativa já tem em mente o início e o desfecho da nova história, mas precisa preencher as lacunas para garantir uma narrativa coerente. Ele também confirmou que a 3ª temporada marcará o fim da série, enquanto a segunda, com a presença confirmada de Hiroyuki Sanada, será mais sombria que a primeira.

 Cena de Shogun

“Shogun” é um exemplo impressionante de como uma série ocidental pode se integrar harmoniosamente com a estética e a cultura japonesas. Com uma narrativa rica e visualmente cativante, a série é imperdível para quem aprecia produções que combinam drama, história e elementos culturais autênticos. Se você é fã de séries, fascinado pela cultura japonesa ou interessado na história do Japão, “Shogun” oferece uma experiência envolvente e cheia de nuances. Vamos aproveitar juntos esse mergulho em uma história fascinante e visualmente deslumbrante!

 

 

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